Thursday, September 13, 2007

"Losers" e os ônibus de Ann Arbor

Os EEUU é um país de pessoas motorizadas, e inclusive já falei sobre isto numa postagem anterior. Estou voltando ao assunto, pois como não sou uma pessoa motorizada, eu necessito utilizar o transporte coletivo da cidade, e o utilizando já há algum tempo, cheguei a algumas conclusões... O transporte coletivo funciona bem, geralmente, mas o número de linhas e horários é bem escasso. A cidade é pequena, então é compreensivo o número escasso de linhas de ônibus. A falta de horários, pra mim é um problema grave, afinal eu dependo dos ônibus, e a linha que eu pego só passa a cada meia hora nos horários normais, e a cada uma hora apenas, a partir das 18h48. E é um saco ficar esperando até o horário do próximo ônibus. Mas falar disso não é bem meu objetivo aqui hoje.

Eu quero falar das pessoas que eu vejo nos ônibus daqui. Não que eu seja preconceituoso, mas a maioria das pessoas mais velhas que pegam ônibus aqui, tem aquela cara de "loser" americano. É impressionante, dá pra identificar muito bem essas pessoas. Algumas pessoas que parecem que já perderam toda a esperança na vida, outras com cara de psicopatas, uns sujeitos de meia-idade que percebe-se que não fazem nada da vida, e que moram sozinhos ou com a mãe até hoje, e coisas do gênero. As pessoas mais jovens que pegam os ônibus são mais normais, afinal aqui é uma cidade universitária, e nem todo mundo vai de carro pro Campus. Os ônibus nunca estão cheios, a maioria das vezes várias pessoas espalhadas pelos assentos.

Ontem quando voltada pra casa, estava dentro do ônibus e de repente entra um sujeito grande, gordo com uma trouxa gigante, do que eu suponho serem roupas recém lavadas. Um sujeito com uma trouxa de roupas gigante dentro do ônibus. Nada demais, pelo menos não aqui. Não foi isso que me chamou a atenção. Ele assentou-se numa das poltronas do ônibus com sua mega-trouxa do lado, e eu comecei a observá-lo discretamente. Definitivamente, ele tinha cara de "loser" americano. Um sujeito na casa dos 40 anos, com cara de quem mora sozinho, solteiro, sem namorada ou esposa, e provavelmente sem amigos. Alguns dentes faltando, e um olhar meio sinistro... Observando-o um tempo, percebi que ele conversava sozinho, baixo, mas não era discreto... Na realidade, ele estava claramente conversando com alguém que não existia, não era consigo mesmo... Ele olhava pro lado e falava, e ria, e fazia caras estranhas... Percebi que, às vezes, ele olhava para uma menina, até bonitinha, que estava em outra poltrona acompanhada de um outro sujeito. Ele olhava e resmungava alguma coisa. Quando a menina deu sinal pra descer do ônibus, eu senti uma certa inquietação vinda dele, e um olhar meio insano. Naquele momento, eu realmente fiquei receoso de que o cara ia tentar alguma coisa com a menina. Mas ele não fez nada... Olhou a menina, como se olha uma presa, pela última vez, e comentou alguma coisa com seu amigo invisível. Uns dois pontos depois, ele desceu do ônibus e foi embora com sua trouxa de roupas, talvez sua única amiga em todo o mundo... Os seus propósitos nefastos permanecem ainda um mistério, e talvez um dia eu volte a encontrá-lo no ônibus.

Foi só um exemplo. Já vi várias outras pessoas estranhas nos ônibus, e todo dia encontro mais uma. No Brasil, andar de ônibus é uma coisa normal, aqui, me parece que somente os excluídos fazem isso... Será que eu sou um dos excluídos? :P

2 comments:

|3run0 said...

Eu sou meio que um para-raio de malucos em onibus. Eis um troço que escrevi uns anos atrás:

_________________________________
Estou de volta no Rio. Fiz uma viagem horrenda de ônibus (comum), mas que não deixou de ser interessante. Não sei por que, as vezes me sinto um para raio de malucos. Já sentei do lado de uma freira que achava quadrinhos coisa do demonio, de um pastor americano que achava que *fisica* é coisa do demonio, além de todo tipo de pessoa
mal-cheirosa/barulhenta/chata. Mas desta vez foi pior.

Começou logo na saída. Uma velhinha e seu filho (tb já avançado em anos) começaram a conversar. Tudo bem, nada de mais. Mas a conversa continuou por horas, quase metade da viagem! Coisas do tipo...

A Mariazinha (que é casada com o Josué) não conversa mais com a Lígia (irmã do Heitor), porque a dona Ana (Mãe da Maria) expulsou o Juca (amigo do Heitor) de casa quando este terminou o noivado com a Albertina (afilhada de dona Ana). Mas dizem as mas linguas que...

Finalmente, depois de nos informar de todas as novidades em Cafundó do Mato Fundo, e das andanças de toda a arvore geneaologica dos Zé Goiaba de Almeida, eles cairam no sono, e se limitaram a roncar.

Enquanto isso, um velhinho que já não parecia muito normal começou a surtar (ele queria viajar de graça, e depois de finalmente comprar a passagem perguntou se o onibus ia para Curitiba). Ele dizia, em um tom fúnebre: "Vcs tão vendo o que eles querem fazer comigo!", e em seguida "O motorista quer me matar!", como quem anuncia um oraculo. O dia já ia amanhecendo, e depois que ninguem se protificou a salva-lo do motorista, o velhinho tentou primeiro pular do onibus (sendo agarrado por um
passageiro) e segurar o volante (sendo agarrado por *vários* passageiros, que provavelmente queriam tornar a sua profecia verdadeira). Entre gritos e mordidas, ele foi entregue a policia rodoviaria, que todos sabemos é subordinada aos Illuminati da Bavaria...

Depois de um engarrafamento basico de 2 horas, finalmente chegamos na Rodoviaria. Peguei um onibus para Botafogo, e me sentei na esperança de recuperar algum sono perdido. O motorista tinha métodos pouco ortodoxos de conduzir, porém. Enquanto viajava a uma fração consideravel da velocidade da luz (os carros a frente ficavam azuis, os de trás vermelhos), ele gritava "ALGUEM VAI FICAR NO CATUMBI?". Na falta de quem se manifestasse, ele passava zunindo pelo ponto. Alguns pontos depois nós passageiros já tinhamos entrado na onda, e respodiamos com um coro de NÃO!. Até que uma mulher se atreveu a descer em Laranjeiras (recebendo um coro de AAAAAAHHHHs como resposta), e a coisa perdeu a graça.
_________________________________

Quase-Físico said...

Hehehe... que sinistro!! Cada história meu! Pensei que era só comigo isso!

Vou contar uma minha:

Era domingo e eu estava eu saindo do cursinho... subi no onibus e ele estava com todos os lugares ocupados menos um e como o meu ponto era bem no começo da linha, resolvi sentar pq lá no final sempre fica meio lotado.

Do meu lado tinha uma velha, fedendo álcool.. ela virou pra mim, que estava sentado com minha mochila no colo e disse: vc tava na escola de domingo? vc é burro?

Eu: não é que eu faço cursinho pra vestibular e tal..

Ela: Acho que vc tem bolacha ai! dá pra mim!

Eu: ham? bolacha?

Ela: é! vc tava na escola e tem bolacha! pode me dar!

Eu: eu não tenho bolacha!

Ela: tem sim!!

(onibus lotando... e eu ficando preso ali!)

No final das contas a velha ficou me pentelhando o caminho todo e no final queria que eu desse dinheiro
pra ela pra ela comprar bolacha! Vê se pode...